quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

OFF Topic - Belo texto

publicado hoje na Folha de São Paulo e que tem MUITO a ver com aquele assunto do começo da semana.


Anna Veronica Mautner

...e eu chorei

E acho que continuarei chorando. Entre redigir o título e começar o texto, tive que me haver com o entregador do açougue -jovem provavelmente alfabetizado- e disse-lhe: "Queria três vezes o que você me trouxe". Ele arregala os olhos e faz uma interrogação com a testa. "Vezes?", diz ele. A cozinheira, que estava ao seu lado, traduz para um outro português a minha fala: "Outros dois tantos iguais a esse". Aí ele entende. Três vezes ele não entende. Três tantos ele entende.
Mas voltando ao que eu iria escrever... Não sou muito boa de digitação. Por isso, uma jovem senhora de mais de 30 anos que estudou em colégio de freiras de uma capital brasileira que eu não quero esclarecer qual é se ofereceu -estávamos numa pousada- para tomar o ditado. Aí descobri que as muitas representações gráficas que correspondem em português ao som "esse" eram completamente desconhecidas para ela.
Ss, c, ç, sc, xc, s, x eram dados absolutamente inconscientes para ela, que jamais havia se tocado que o som "esse" poderia ser escrito de tantas maneiras.
Não é que ela tenha esquecido, jamais se tocou dessa possibilidade. Ela não me via e eu verti algumas lágrimas.
Sua origem não era humilde, seu ofício era trabalhar com computador, efetiva no serviço público. Ela simplesmente nunca tinha tomado um ditado.
A conexão entre som, representação mental e grafismo só pode ocorrer de forma eficiente se tarefas escolares tais como cópias e ditados forem feitos e corrigidos. E o ditado continuava, sendo que cada palavra com a letra "esse" eu soletrava.
De repente, surgiu uma palavra nova: psíquica. Aí ela disse, para que eu vertesse mais lágrimas, que isso ela até sabia o que era, mas nunca tinha visto escrito. Por isso, não saberia escrever. Diante de tais coisas e de outras que se seguiram nas três laudas de texto, permaneço estarrecida até agora.
Volto à civilização e caio na discussão da reforma ortográfica. Desconfio que "tanto faz" diante do que é escrever em nossas capitais. Não se trata de uma mulher qualquer; tem computador e laptop. Provavelmente só usa para bater papo com pessoas que também não tomaram ditado na vida.
E, como bem lembrou uma amiga, as palavras erradas num ditado ou numa cópia tinham que ser escritas umas tantas vezes para a grafia correta ser memorizada. No afã de agradar, de não sobrecarregar e de não chatear, as professoras corrigem menos do que o necessário. E assim não frustram nem ensinam seus alunos.
Eu chorei de verdade. Não podia ter raiva porque ela é inocente, não sabe que não sabe.
Mas não erra na roupa moderna e no porte audacioso. Essa foi uma pequena parcela da minha experiência de 29 dias em uma pousada. Como meu vício é observar, seguramente tenho assunto para muitos outros textos. É só lançar mão da minha memória que quase nunca me falha.


ANNA VERONICA MAUTNER, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora)

13 comentários:

  1. Pois é, né?
    Adorei o texto!

    (mas ainda não me entendi com a tal da reforma... adoro acentos!)

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  2. Meninas, texto lindo!
    E um dos elogios que eu sempre faço ao blog de vocês, quando indico é: Como é bem escrito! Tanto a forma como escrevem quanto a grafia.
    Podem inventar o que quiserem a respeito da reforma ortográfica, mas a verdade é que o Português sempre foi considerado um idioma difícil e querem facilitar.
    As pessoas não sabem escrever com acentos? Tudo bem, nos livramos deles! Lamentável, como sempre.

    Beijos!

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  3. A tal reforma ortográfica não serve para facilitar droga nenhuma, é mais um acordo político entre países de língua portuguesa, entre bilhões de aspas. Sei do que falo, sou professora de português. Coisa irritante! E uma reformulação gramatical séria ninguém (MEC) faz, por mais que um moooonte de núcleos de estudo da língua insistam, implorem...

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  4. Muito bom texto. Eu me recuso a aceitar as novas regras de ortografia, ainda mais porque elas só servem para facilitar a vida de quem escreve errado, mas, por questões profissionais, sou obrigada a "esquecer" de colocar acentos tão queridos. Mas a crase não vai sair do lugar, pelo menos para mim.

    Obrigada pela visita e pelo seu comentário no meu blog. Eu estava com vontade de comprar o kabukinho da EDM, mas li no Makeup Alley algumas críticas desabonadoras de algumas usuárias, que reclamvam das cerdas. Como o da Bourjois está "barato" em uma lojinha próxima ao meu trabalho, vou nele mesmo. Mas ainda penso em comprar outros pincéis da EDM, como o flat top e o angled (que estão em falta... buá!).

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  6. Eu adoro o blog de vocês, acho um mimo e agradável porque (com acento??) bem escrito.
    Sei não, mas acho que inventaram esse tal "acordo ortográfico" é apenas uma vingança contra quem aprendeu a ler, a escrever (não é o meu caso ...) e a pensar direitinho. Esse texto da Ana Veronica Mautner é, realmente, de chorar. Quero dizer: o texto é muito bom, o que faz chorar é a situação. E o nosso futuro (eu já sou uma 'veinha') está nas mãos dessas pessoas ...
    Eu já me decidi: vou escrever errado, mas vou continuar escrevendo como aprendi.
    E pronto!

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  7. Será que ainda tomam ditado nas escolas hoje em dia? Aqui em casa sempre teve. Aliás, foi muito bom recordar.

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  8. é, né?
    hj em dia tá assim...
    ainda bm q eu tive ditado. e cópias. e livros pra ler. e uma mãe professora d português, um pai advogado e uma cabeça obcecada por perfeição.

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  9. Texto lindo mesmo.
    Eu sou totalmente crítica à reforma ortográfica e já repeti isso milhões de vezes no meu blog.
    Emais uma vez parabéns pelo reconhecimento do blog de vcs. bjo

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  10. Odeio a reforma, odeio o fato de meu sobrinho ter uma letra feia porque não se ensina mais a escrever em papel em uma das escolas mais caras do Rio, odeio constatar que a realidade é muito pior que o novilíngua previsto por George Orwell em "1984".

    Ah sim , o VNF? eu adoro.Por essas e outras.

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  11. Acho que o pior nem é a reforma, são as pessoas que não estão nem aí se ela existe ou não, que não se importam em escrever direito porque acham uma inutilidade saber ortografia / gramática, já que, no final, "todo mundo se entende".

    Esse texto da Anna Veronica prova o quanto é que a população do país sabe realmente o seu idioma...

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  12. Com reforma, ou sem reforma, o grande problema é que as pessoas leem cada vez menos. É lendo (literatura, não msn) que se conhece e grava a ortografia correta das palavras, independente de saber as regras. Como disse o Quintana, "o pior analfabeto é aquele que sabe ler e não lê".
    Parabéns pelo sucesso do blog, bjks para vcs!

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